7 de dez de 2012

Além do ponto


Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que leu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda; e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu,  e eu era.
(Além do ponto - Caio F. de Abreu)

22 de nov de 2012

Você merece, você merece...


 Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. 
(Os sobreviventes - Caio Fernando de Abreu)


28 de out de 2012

Esforço de guerra




Esforço de guerra

Buscar
a concentração máxima
do sentimento poético.
Preencher
com aquela matéria
o espaço
de uma palavra apenas.

Palavrogiva
que atinja em cheio
as instalações
da indiferença,
da apatia.

Marcelo Xavier
 

18 de out de 2012

Um risco



"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar" (O Pequeno Príncipe)

30 de set de 2012

valsas e bandolins


Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...

Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!

Casimiro de Abreu


Linda música que dedico a Maria Dalva e Bento: "e por que não dizer que o mundo respirava mais..."

e pra mim tá tudo bem...


"mais um dia feliz, sem você"


5 de set de 2012

Sensações

 Formas, texturas, cores, cheiros e sabores em Godard, Neruda e Lenine.

Cena de "Uma mulher casada" (França, 1964) de Jean-Luc Godard

O oleiro

Todo teu corpo tem
taça ou doçura destinada a mim.

Quando levanto a mão
encontro em cada ponto uma paloma
que me buscava, como
se tu fosses, amor, feita de argila
só para as minhas mãos de ceramista.

Teus joelhos, teus seios,
tua cintura,
me fazem falta como no vão
de uma terra sedenta
da qual foi desprendida
uma forma,
e juntos
somos completos como um rio único,
como uma única areia.

Pablo Neruda - Os versos do capitão (tradução de Thiago de Mello)




16 de ago de 2012

Abstração



Abstração

Há no espaço milhões de estrelas carinhosas,
Ao alcance de teu olhar....mas conjeturas
Aquelas que não vês, ígneas e ignotas rosas,
Viçando na mais longe altura das alturas.

Há na terra milhões de mulheres formosas,
Ao alcance de teu desejo.... Mas procuras
As que não vivem, sonho e afeto que não gozas
Nem gozarás, visões passadas ou futuras.

Assim, numa abstração de números e imagens,
Vives. Olhas com tédio o planeta esmo e triste,
E achas deserta e escura a abóbada celeste.

E morrerás, sozinho, entre duas miragens:
As estrelas sem nome - a luz que nunca viste,
E as mulheres sem corpo - o amor que não tiveste.

Olavo Bilac

5 de ago de 2012

Pintura

A roda, por Iara 


Via Láctea 
XXVIII

Pinta-me a curva destes céus ... Agora,
Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma:
Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,
E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora.

Solta, ondulando, os véus de espessa bruma,
E o vale pinta, e, pelo vale em fora,
A correnteza túrbida e sonora
Do Paraíba, em torvelins de espuma.

Pinta; mas vê de que maneira pintas ...
Antes busques as cores da tristeza,
Poupando o escrínio das alegres tintas:

— Tristeza singular, estranha mágoa
De que vejo coberta a natureza,
Porque a vejo com os olhos rasos d'água ...

Olavo Bilac

Detalhe


3 de ago de 2012

Benedicite!



Benedicite!

Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o teto;
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira,
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...

Mais bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

Olavo Bilac

2 de ago de 2012

Three little birds...

Cada um tem uma música que alivia um pouco a dor daqueles momentos em que o chão parece desabar sob os pés.




Imagem retirada de  http://olhares.uol.com.br/composicao-com-tres-passaros-foto3248023.html 







30 de jul de 2012

Mandala



Mandala

Ela se mandou
Não quis se explicar
Não escreveu nada
Não quis me culpar.

Ela me deixou
E não me deixou nada
Apenas se esqueceu
Da “bendita” mandala.

Ela então voltou
Estacionou o Opala, beijou a mandala
E pediu para ficar.

Vou mandá-la embora:
Ela e a mandala; ficarei com o Opala
E serei como outrora.

Iara




Obs.: Desconheço a autoria dessa mandala. Se alguém souber, nos informe por favor.

Diagrama da mandala AQUI

23 de jul de 2012

Hiroshima, meu amor


Hiroshima, meu amor (Hiroshima mom amour, França/Japão, 1959) dirigido por Alain Resnais  é um dos filmes representantes da Nouvelle Vague. Certamente não é um filme para ser visto com o mesmo olhar que assistimos a filmes com narrativas lineares no sentido de cronologia e de coesão. Um olhar mais "sensível" é necessário justamente devido à proposta do filme não ser narrativa e sim poética.


Um filme sobre o amor, sobre as memórias, sobre a guerra e que é ao mesmo tempo cinema, poesia e política...mas não vou descrevê-lo. O que me importa é aguçar as vontades, então deixo meu elogio pela originalidade magistral do diretor, pela atuação de Emmanuelle Riva e pela belíssima fotografia. Além disso, como não poderia me escapar aos olhos, deixo minha observação para duas cenas em que o origami  aparece integrando o cenário:

Cena em que tsurus são carregados por crianças em uma passeata
(a passeata compõe as gravações de um "filme dentro do próprio filme")
Cena de um quarto de hospital totalmente ornamentado com origamis,
entre eles, vários kusudamas.


 Sem dúvidas, um grande filme, para ser visto várias vezes e para muitas reflexões.

20 de jul de 2012

Firework - Inconstância




Origami Firework de Yami Yamauchi. 


É como um sol que se abre em várias faces (ou fases) revelando diferentes arranjos, diferentes mandalas...
me lembrei deste soneto, um pouco triste, mas muito lindo:

Inconstância

 Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também… nem eu sei quando…

Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade



É aconselhável utilizar papéis coloridos e com bastante contraste para um efeito mais bonito. 
Tutorial: AQUI

19 de jul de 2012

Curta "Papiroflexia"

Lindíssimo encontro entre cinema e origami! 
Papiroflexia (2009) é um curta espanhol de 6 minutos com direção de Beatriz Alonso Aranzábal:

Chamou a atenção o livro que a personagem escolhe: Clarice Lispector. Quanto bom gosto!

18 de jul de 2012

Pluméria

"Me perguntas por que compro arroz e flores? Compro arroz para viver e flores para ter algo pelo que viver".
Confúcio

Kusudama Plumeria Floral Ball de Meenakshi Mukerji.


  





Pluméria natural.

Diagrama AQUI.

7 de jul de 2012

Fake Plastic life

Fake plastic trees, fake plastic things, fake plastic people, fake plastic love, fake plastic life...to get rid of itself.
"árvores, coisas, pessoas, amor, vida artificiais para se livrar de si mesmo"

"um regador verde de plástico, para uma falsa planta chinesa de borracha"

Regador feito a partir da base de tsuru. Árvore:

2 de jul de 2012

Móbiles com tsurus e borboletas

Tsurus simbolizam prosperidade e saúde.
Borboletas sugerem metamorfoses e liberdade.

"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda".
                            Cecília Meireles








Tutorial da borboleta:

Diagrama:

6 de mai de 2012

Caracol - fácil


Caracol em nível fácil - ideal para crianças.



3 de mai de 2012

Poesia a Belo Horizonte



Poesia a Belo Horizonte



Teus abraços, de concreto

Teus beijos, de vidro

Teus amores, de plástico

Teu céu já não é tão azul

E sempre te direi 

Que já não és a mesma de antes

Por mais que te ame

E ainda te contemple

Em belos horizontes.



Iara Ferreira


13 de abr de 2012

Transformação de uma gaveta

Outro dia encontrei partes de um guarda roupa jogado fora. A maioria das partes estavam quebradas mas havia uma gaveta em razoáveis condições...Foi amor à primeira vista, somado à minha necessidade de encontrar lugar para colocar alguns livros e "trecos" que vão se acumulando e formando pilhas em cima de qualquer móvel...casa pequena é assim mesmo....

já tinha visto fotos de gavetas e outros objetos sendo reutilizados com outras funcionalidades e principalmente como artigos decorativos. Não deu outra! A gaveta virou uma linda estante-quadro!


Foi preciso alguns ajustes para que ela ficasse firme. Antes ela estava assim:


No fundo dela, fiz um trabalho simples de colagem de recortes de revistas velhas (outra vez reutilizando!). As figuras foram coladas com cola branca e em seguida envernizadas para um melhor acabamento.
Pendurada na parede, a gaveta-estante-quadro ficou assim:



  

Eu me apaixonei pelo resultado!
Além da possibilidade de termos um objeto ou móvel exclusivo, penso que a reutilização de objetos é algo necessário para economia de recursos naturais como energia, petróleo, madeira, etc. Nossas políticas mundiais de consumo e desperdício dessas matérias primas estão muito longe de pensar eficazmente em uma real preservação ambiental. Nos resta a consciência que cada um pode ter, com pequenas iniciativas...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...