3 de abr. de 2013

Azul esverdeado




Azul esverdeado

Olhos castanhos, cárceres de minha vida,
deixe-me ir, apenas ir
ao encontro de sorrisos gratuitos
de amor verdadeiro
e de paz que não há no teu olhar;
deixe-me livre.

Deixe-me mergulhar no azul esverdeado
onde eu não tenha que implorar em vão
pelo esforço de seus sorrisos
pelo vazio de suas promessas
pela frieza de suas mentiras
e pela delicadeza de suas incertezas.

Deixe-me ir sem levar lembranças
sem deixar rastros
deixe-me fingir certeza de tua certeza;
incerta e estúpida certeza.

Deixe-me ir e esquecer-me de tudo
Esquecer que te amei, que te amo
Esquecer a felicidade, a tristeza, a saudade;
Deixe-me, enfim, te deixar.

Iara


5 de mar. de 2013

Sobre saudades


Resposta a alguém que disse "saudade é o que sinto agora, só isso":

"Saudade faz chorar a cada lembrança de quando os objetivos pareciam estar próximos, de quando havia vontade de estar junto e caminhar junto. Saudade é ter que conviver com a ausência e sufocar o amor todos os dias. Saudade dói, consome. É o que sinto agora. É o que sinto todos os dias. Sinto saudades de quando não sabia que a sua saudade era diferente da minha".

Saudade

Êta menino viajante,
desapegado
que passou e deixou
um terremoto em mim.

Nêgo, 
se és pássaro
e vives de vôos,
vá!

Mas leve contigo
o terremoto
e tudo que traz
lembranças de ti.

Que já não suporto
o estrago
dessa saudade
que quase me mata.


1 de fev. de 2013

Quando fevereiro chegar



Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? 
(Para uma avenca partindo - Caio F. de Abreu)

27 de jan. de 2013

Ambivalência



Ambivalência

Tu, ambivalência em pessoa,
que entre tristezas  e alegrias
mergulhas e respiras
saltas num segundo
do vinho à água fresca
da loucura ao equilíbrio
e assim vais, meio que sem saber
onde vai dar, o que vai rolar
querendo mais do que liberdade
mais do que ela poderia dar.

Tu, que nem pensas direito,
que num impulso se joga
e num segundo se acolhe
se arrepende, se maltrata
choras depois de tanto sorrir
e sofres em uma lágrima
o que não sorristes em mil sorrisos
quase desiste, quase avança
se desespera, se encoraja
se sente só, se cansa de tanta gente.

Faça uma poesia!
que alivia o tédio
do desprezo e da mesmice
te sara dessa asia
dessa loucura equilibrada
desse equilíbrio insano
digere a apatia
colore o urbano
e revigora a coragem
a tanto tempo reprimida.

Mas não te iludas!
às 5:30 tudo é mentira
o amor adormece
a beleza envelhece
o olhar se fecha
o afago machuca
a mão se encolhe
o beijo esfria
o sonho termina
a selva se abre.

Iara



4 de jan. de 2013


“Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio trovão fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim todos os dias.”
Caio Fernando Abreu









7 de dez. de 2012

Além do ponto


Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que leu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda; e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu,  e eu era.
(Além do ponto - Caio F. de Abreu)

22 de nov. de 2012

Você merece, você merece...


 Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. 
(Os sobreviventes - Caio Fernando de Abreu)


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