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4 de abr. de 2014

Chuva




Chove lá fora 
e eu, por dentro, 
também. 

Iara 








10 de jun. de 2013



Desarmonia 

Corpo vazio, alma sem corpo.
Uma disputa entre matéria e espírito?
Já não sabe dizer o que é a matéria:
vadia entre as almas pagãs enquanto
anda descalço na terra, gozando texturas.
Um ser pagão-vítima-réu
de um corpo-espírito em constante guerra:
espírito que não cabe no corpo;
corpo que não cabe no mundo;
civilização que dilacera ambos.
Enquanto isso resiste, tonto,
às alergias nasais e olhos vermelhos
que insistem em rejeitar e expulsar
 o próprio ar que o sustenta.
Resiste, tonto, às suas próprias grades.
Engole, dolorosamente, o frio da amarga solidão
e o quente sangue ao pôr de mais um sol.
Descobre, todos os dias, status,
ordem, moral e competição
que afastam o outro de si:
assim distanciam-se os irmãos.
Matam-se lentamente, corpo e espírito,
pela estrada que não finda;
O sangue a escorrer, o suor
à espera inútil da passagem do tempo,
enquanto devaneios cruéis desnudam
misérias e maldades humanas.

Iara


3 de abr. de 2013

Azul esverdeado




Azul esverdeado

Olhos castanhos, cárceres de minha vida,
deixe-me ir, apenas ir
ao encontro de sorrisos gratuitos
de amor verdadeiro
e de paz que não há no teu olhar;
deixe-me livre.

Deixe-me mergulhar no azul esverdeado
onde eu não tenha que implorar em vão
pelo esforço de seus sorrisos
pelo vazio de suas promessas
pela frieza de suas mentiras
e pela delicadeza de suas incertezas.

Deixe-me ir sem levar lembranças
sem deixar rastros
deixe-me fingir certeza de tua certeza;
incerta e estúpida certeza.

Deixe-me ir e esquecer-me de tudo
Esquecer que te amei, que te amo
Esquecer a felicidade, a tristeza, a saudade;
Deixe-me, enfim, te deixar.

Iara


5 de mar. de 2013

Sobre saudades


Resposta a alguém que disse "saudade é o que sinto agora, só isso":

"Saudade faz chorar a cada lembrança de quando os objetivos pareciam estar próximos, de quando havia vontade de estar junto e caminhar junto. Saudade é ter que conviver com a ausência e sufocar o amor todos os dias. Saudade dói, consome. É o que sinto agora. É o que sinto todos os dias. Sinto saudades de quando não sabia que a sua saudade era diferente da minha".

Saudade

Êta menino viajante,
desapegado
que passou e deixou
um terremoto em mim.

Nêgo, 
se és pássaro
e vives de vôos,
vá!

Mas leve contigo
o terremoto
e tudo que traz
lembranças de ti.

Que já não suporto
o estrago
dessa saudade
que quase me mata.


1 de fev. de 2013

Quando fevereiro chegar



Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? 
(Para uma avenca partindo - Caio F. de Abreu)

4 de jan. de 2013


“Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio trovão fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim todos os dias.”
Caio Fernando Abreu









22 de nov. de 2012

Você merece, você merece...


 Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia nossos fatigados pés descalços ao fim de mais outra semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. 
(Os sobreviventes - Caio Fernando de Abreu)


30 de set. de 2012

valsas e bandolins


Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...

Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!

Casimiro de Abreu


Linda música que dedico a Maria Dalva e Bento: "e por que não dizer que o mundo respirava mais..."

e pra mim tá tudo bem...


"mais um dia feliz, sem você"


5 de set. de 2012

Sensações

 Formas, texturas, cores, cheiros e sabores em Godard, Neruda e Lenine.

Cena de "Uma mulher casada" (França, 1964) de Jean-Luc Godard

O oleiro

Todo teu corpo tem
taça ou doçura destinada a mim.

Quando levanto a mão
encontro em cada ponto uma paloma
que me buscava, como
se tu fosses, amor, feita de argila
só para as minhas mãos de ceramista.

Teus joelhos, teus seios,
tua cintura,
me fazem falta como no vão
de uma terra sedenta
da qual foi desprendida
uma forma,
e juntos
somos completos como um rio único,
como uma única areia.

Pablo Neruda - Os versos do capitão (tradução de Thiago de Mello)




16 de ago. de 2012

Abstração



Abstração

Há no espaço milhões de estrelas carinhosas,
Ao alcance de teu olhar....mas conjeturas
Aquelas que não vês, ígneas e ignotas rosas,
Viçando na mais longe altura das alturas.

Há na terra milhões de mulheres formosas,
Ao alcance de teu desejo.... Mas procuras
As que não vivem, sonho e afeto que não gozas
Nem gozarás, visões passadas ou futuras.

Assim, numa abstração de números e imagens,
Vives. Olhas com tédio o planeta esmo e triste,
E achas deserta e escura a abóbada celeste.

E morrerás, sozinho, entre duas miragens:
As estrelas sem nome - a luz que nunca viste,
E as mulheres sem corpo - o amor que não tiveste.

Olavo Bilac

2 de ago. de 2012

Three little birds...

Cada um tem uma música que alivia um pouco a dor daqueles momentos em que o chão parece desabar sob os pés.




Imagem retirada de  http://olhares.uol.com.br/composicao-com-tres-passaros-foto3248023.html 







7 de jul. de 2012

Fake Plastic life

Fake plastic trees, fake plastic things, fake plastic people, fake plastic love, fake plastic life...to get rid of itself.
"árvores, coisas, pessoas, amor, vida artificiais para se livrar de si mesmo"

"um regador verde de plástico, para uma falsa planta chinesa de borracha"

Regador feito a partir da base de tsuru. Árvore:

9 de set. de 2011

Consumidores consumidos - "Gone"




Qual a distancia entre a superficialidade do consumo consciente e a dependência de se deixar ser consumido?
O que dizer da alienação de uma sociedade que sustenta o consumo como valor estético e status?
O que dizer sobre a paradoxal necessidade de consumir e a avassaladora alienação destruidora de culturas e de memórias?

O que dizer nós, orgulhosos consumidores, inconscientemente consumidos?

Essa música é fantástica!
Autoria de Jack Johnson
 Gone
Look at all those fancy clothes
But these could keep us warm just like those And what about your soul, is it cold?
Is it straight from the mold and ready to be sold?
And cars, and phones, and diamonds rings, bling bling
Those are only removable things
And what about your mind, does it shine?
Or are those things concerned you, more then you time?
Gone going, gone everything, gone give a damn
Gone, be the birds, when they don´t want to sing
Gone people, all awkward with their things, gone Look at you out to make a deal
You try to be appealing but you lose your appeal
What about those shoes you´re in today, they´ll do no good
On the bridges you burnt along the way, oh... You willing to sell anything, gone with your hurt
Leave your footprints, we´ll shame them with our words
Gone people, all careless and consumed, gone Gone going, gone everything gone give a damn
Gone be the birds, when they don´t want to sing
Gone people, all awkward with their things, gone...
Foi
Bem, olhe para aquelas roupas chiques
Mas essas poderiam nos manter aquecidos assim como aquelas
E quanto a sua alma, está fria?
Saiu direto do molde e pronta para ser vendida?
E carros, telefones e anéis de diamantes, "Bling, bling"
São apenas coisas removíveis
E quanto a sua mente, ela brilha?
Ou há coisas que te preocupam mais do que seu tempo?
Foi indo, foi-se tudo, foi-se, não deu a mínima
Foi-se como os pássaros quando não querem mais cantar
Pessoas que se foram, todas desajeitadas com suas coisas, foram.
Bem, olhe para você, saiu para fazer um negócio
Você tenta ser atraente, mas você perdeu seu apelo
E quanto àqueles sapatos que você está usando hoje? Eles não servirão para andar
Nas pontes que você queimou ao longo do caminho, oh...
Você está querendo vender qualquer coisa que se foi com sua dor.
Deixe suas pegadas, e nós vamos envergonhá-los com nossas palavras
Pessoas que se foram, todas descuidadas e consumidas, foram
Foi indo, foi-se tudo, foi-se, não deu a mínima
Foi-se como os pássaros quando não querem mais cantar
Pessoas que se foram, todas desajeitadas com suas coisas, foram.

5 de mar. de 2011

Hoje o samba saiu, lalalaiá, procurando você...

Aproveito o clima de carnaval para dividir com vocês uma das músicas que mais gosto com um dos maiores compositores e cantor brasileiro, Chico Buarque de Hollanda. Esse cara é, na minha opinião, um fenômeno na MPB, simplesmente, um ícone imortal. O que muito me lamenta, hoje em dia, é o grande desprestígio que esses artistas incríveis sofrem e o mal gosto da maior parte da sociedade brasileira para a musica (digo, composição musical) e arte em geral.

viva o samba!
viva a bossa!
viva a MPB!

Hoje o samba saiu....procurando você....
ótimo carnaval a todos!

Quem Te Viu, Quem Te Vê

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
Você era a favorita onde eu era mestre-sala Hoje a gente nem se fala mas a festa continua Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua
Hoje o samba saiu, lá lalaiá, procurando você Quem te viu, quem te vê Quem não a conhece não pode mais ver pra crer Quem jamais esquece não pode reconhecer
Quando o samba começava você era a mais brilhante E se a gente se cansava você só seguia a diante Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado
O meu samba assim marcava na cadência os seus passos O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão
Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia Quem brincava de princesa acostumou na fantasia
Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria Quero que você me assista na mais fina companhia Se você sentir saudade por favor não dê na vista Bate palma com vontade, faz de conta que é turista
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